Em uma daquelas infindáveis guerras entre China e Japão, o general Li Tai Peng defendeu heroicamente a sua cidadela durante uma batalha em que tinha tudo para vencer: melhor tropa, melhor armamento, e melhor situação no terreno.

Quando o exército inimigo se aproximou ele ordenou a seus soldados:
“Ho Tai Chim!”. Nada conheço do idioma chinês, mas sempre ouvi dizer que eles são compactos na linguagem, dizem muito com poucas, pouquíssimas palavras.

A ordem (Ho Tai Chim!), traduzida em vernáculo significava: “Lanceiros se coloquem à esquerda, cavaleiros à direita e infantes avancem pelo centro!”.

A economia verbal do comandante foi entendida pelos soldados, que começaram a cumprir a ordem recebida, até que o general descobriu uma brecha no exército inimigo e deu uma contra-ordem: “Hiro Tse Chim!”.

Com grande pasmo, mas com igual presteza, os soldados inverteram as posições e os lanceiros se colocaram à direita, os cavaleiros à esquerda, e a infantaria se dividiu em duas, metade foi para a direita, metade foi para a esquerda. No centro posicionou-se a artilharia.

Era moleza a vitória. Com a nova disposição, o general teria triunfado. Antes de o sol se pôr, ele poderia orar no Templo da Paz Celestial e agradecer aos deuses a formidável vitória.

Mas havia um jornalista francês, François Seladier, correspondente do “Figaro”, o único autorizado a cobrir o heróico feito do general Li Tai Peng. Ele estava ao lado do comandante quando as duas ordens foram dadas: “Ho Tai Chim!”, seguida da terrível e definitiva “Hiro Tse Chim!”.

Entusiasmado com o tirocínio do valente general, Seladier não reparou que uma mosca ia entrando em seu nariz, e quando reparou já era tarde: a mosca entrou-lhe pelas ventas, e ele não conseguiu reprimir um tonitruante, um formidável “Atchim!”.

Deu merda. Mais uma vez pasmos, os soldados, que já estavam devidamente posicionados, acharam que a nova ordem fora dada pelo general. Traduzido em vernáculo, o atchim, que todos entenderam como “Hat chim!” significava o desespero. “Vamos dar o fora e que cada um cuide de si!” Ou mais sucintamente: “Escafedemo-nos!”.

Escafederam-se todos. Atônito, do alto do seu cavalo, o general Li Tai Peng não compreendeu o que se passava. Como? Sua tropa era formada por soldados de elite. Da Mandchúria aos contrafortes da Grande Muralha, vieram os homens mais audazes, que não temiam morrer pelo Império Celestial e sabiam matar com a crueldade dos tártaros.

E um espirro bastava para que todos debandassem, covardemente, deixando a cidadela exposta à cupidez e à sanha do inimigo. Li Tai Peng ainda tentou consertar as coisas, gritou um: “Li Po Yang Chim” – que significava aproximadamente: “Cães do inferno! O que fazeis? Borraste-vos de medo diante do perigo?”.
Mas também era tarde. Pequena causa, o espirro de um francês, provocara um grande efeito. Ao sol se pôr, em vez de estar no Templo da Paz agradecendo aos deuses a colossal vitória, Li Tai Peng pediu que o degolassem e levassem sua cabeça ao general inimigo, como troféu da batalha.

François Seladier mandou para o “Figaro” um emocionante relato da debandada, e tão emocionado ficou com o seu texto que tomou um porre de aguardente de arroz tão grande que caiu nas águas do rio Tse Yang. Pegou um resfriado e passou a noite espirando, sem que nada acontecesse de importante com ele ou com o mundo.

FONTE : employer.com.br